quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Panis et Circenses

De uma entrevista com Bill Gates extraí alguns trechos que considero pertinentes a “minha realidade” e abaixo contextualizo (em itálico) com tal – no passado Gates foi um homem sem escrúpulos e socialmente não serviria como referência alguma, porém hoje o seu discurso serve e merece uma reflexão.

Para Bill Gates: Fale sobre como a "política educacional de vida fácil para as crianças" tem criado uma geração sem conceito da realidade, e como esta política tem levado as pessoas a falharem em suas vidas posteriores à escola. (a “escola” hoje não forma mais cidadãos críticos e atuantes, forma incompetentes e permeia a sociedade com escória)

Regra 1: A vida não é fácil - acostume-se com isso. Nem a escola de verdade.
Regra 3: Você não ganhará R$ 20.000 por mês assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone. Se você quer alguma coisa tem antes que fazer por merecer, então façam o quanto antes, pois não terão os pais de vocês para lhes “alcançar as coisas” a vida toda.
Regra 4: Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você. Vocês devem questionar aquele professor que tenta facilitar as coisas para vocês, se ele age assim é porque numca atuou em ambiente corporativo e não tem uma visão da "vida real”. Lá você trabalha e produz ou “está fora”. Não é fácil para quem está preparado, menos ainda para quem não está. Se consideram os meus comentários ácidos, esperem até sair da escola, o choque vai começar já na entrevista de trabalho.
Regra 5: Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Seus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam de oportunidade. O mercado de trabalho se divide entre os competentes e os incompetentes, a distinção não deve ser feita pela atividade que a pessoa exerce e sim pela qualidade do seu trabalho.
Regra 6: Se você fracassar, não é culpa de seus pais, então não lamente seus erros, aprenda com eles. Antes de projetar a culpa em alguém "se olhem no espelho", tudo o que acontece a vocês é repercussão do seu comportamento, resultado dos seus atos!
Regra 8: Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real. Se pisar na bola, está despedido, RUA!!!!! Faça certo da primeira vez. No mercado de trabalho não existe lugar para “profissionais” medíocres.
Regra 9: A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período. Com a dedicação que vocês demonstram hoje, se um dia conseguirem se inserir no mercado de trabalho, não passarão do período de experiência, pois não terão um colega do lado para copiar o trabalho, se não souberem o seu ofício serão despedidos.
Regra 11: Seja legal com os CDFs (aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas, aqueles que parecem só estudar). Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar PARA um deles. Com a postura que vocês estão adotando é a isso que estão fadados.


O que se vive hoje dentro das escolas e a maioria não percebe, é uma reprodução da política do pão e circo, os alunos se satisfazem com o “nada”, isto é, basta ser aprovado no fim do ano, pois o “conhecimento” não interessa mais.
A precariedade da escola e do ensino é deixada de lado quando essa preocupação é substituída por jogos interescolares, festinha Junina, semana Farroupilha, comemorações do dia do Aluno  (não mais do estudante) e qualquer outro momento que não envolva os livros.
São todos momentos legítimos e tem sua validade sociocultural, porém não devem nunca substituir a sala de aula e nunca substituirão da maneira como são conduzidos.
Se querem chegar a algum lugar pensem nas regras 1, 3 e 4.



Juramento do cavaleiro (moderno).

Não demonstre medo diante de seus inimigos. 
Seja bravo e justo, diga sempre a verdade, mesmo que isso o prejudique.
Proteja os mais fracos e seja correto.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Balanço dos meus últimos 18 meses

Nessa semana fiz um balanço dos últimos 18 meses. Nesse período viajei mais de 23 mil Km, visitei duas ilhas, o local mais remoto na terra que é habitado pelo homem, a cidade mais ao sul do globo terrestre, conversei com descendentes diretos de uma linha muito antiga da civilização humana, dirigi a mais de 240km/h, mergulhei no pacífico sul, andei de trenó puxado por cães da raça Husky, conheci pessoas de todos os continentes, vi animais que nunca havia visto antes e alguns que nem se quer imaginava existirem, conheci algumas pessoas incríveis e que realmente fazem a diferença. Pisei e naveguei por onde figuras importantes da historia da humanidade passaram. Tive a oportunidade de estar em meio a paisagens fantásticas que te tiram o fôlego não importa em qual direção você olhar, isso me fez perceber que nada que o homem venha a construir conseguirá superar a beleza da natureza. Conheci ícones da cultura e da ciência.  Bebi mais de 30 marcas diferentes de cerveja. Não preciso mais me deslocar 300km diários para trabalhar, hoje saio do trabalho e em pouco mais de 3 minutos estou entrando com o carro na garagem de casa.

Por outro lado compreendi o porquê de alguns povos terem aversão ao brasileiro, vi com os meus olhos os motivos pelos quais o Brasil tem certa imagem no exterior, nesse período conheci a ganância humana, a indiferença e a hipocrisia, pela primeira vez vi tanta gente mal-intencionada e preguiçosa reunida em um mesmo lugar, conheci pessoas egocêntricas e promíscuas, corruptas e incompetentes, conheci pessoas realmente más e percebi que alguns nascem sem a menor vocação para serem "humanos".
Entendi que não é uma questão de classe social ou de formação, e que a idade também não importa no que diz respeito aos valores éticos e morais, percebi o quanto é fácil as pessoas se corromperem por alguns míseros trocados. 
Confirmei o que Cesar Lattes disse a muito tempo, que no Brasil já não se faz mais ciência pela ciência e sim pelos "papéis", vi também como as pessoas hoje gostam de brincar de cientistas e também de trabalhar. Pela primeira vez em 15 anos preciso me esforçar para sair de casa para ir para o trabalho. Constatei a volatilidade dos sentimentos e como é natural para algumas pessoas ser superficial e indiferente. Vi como é simples compensar a ausência com "presentinhos" e como fica comodo projetar nos outros as nossas falhas.
Notei que fora do Brasil poucos assinam com a titulação a frente do seu nome, que quem compra um SUV é porque tem uma família grande e precisa carregar as tralhas da criançada, que quem dirige uma pickup é porque exerce trabalho braçal e precisa carregar as ferramentas, e quem quer pagar embuste paga mais de meio milhão de dólares em um carro esportivo!
Percebi que existem alguns brasileiros que conseguem ser mais idiotas do que qualquer outro povo e  que vivo em um país acultural onde o modismo - aqui no sul, o do bagualismo - norteia os momentos.
Tenho a cada dia mais certeza de que a educação no Brasil não passa de um engodo. Vi como é triste as pessoas confundirem liberdade com promiscuidade. Ouvi "ecochatos" falando em ser ecologicamente corretos e acolhendo animais de rua, e no entendo, tratarem o seu semelhante sem um mínimo de humanidade. Ouvi pessoas imorais se intitularem moralistas. Vi também como as pessoas justificam "viver abusivamente" com "viver intensamente".

Isso tudo reforça meu pensamento de que:
Não é tao simples viver a vida, mas precisamos vivê-la de maneira tal que quando chegarmos ao fim da nossa existência, sem arrependimentos, tenhamos certeza de que valeu a pena ter vivido cada momento. 
E entre tantos filmes e seriados que assisti nesses meses percebi como alguns realmente imitam a vida real. No final do filme Shutter Island o personagem de Leonardo DiCaprio se pergunta o que seria pior:
Viver como um monstro ou morrer como um homem bom?
Hoje eu vejo que não é só a América do Norte que se tornou um lugar cruel e corrompido, e assim como Frank - personagem em God Bless America - me pergunto:  
O que nos tornamos?
Nós recompensamos o que há de mais superficial, mais estúpido, pior e mais barulhento.
Não temos mais senso de decência, de vergonha, de certo ou errado.
As piores qualidades nas pessoas é o que nos chama atenção e atrai.
Mentir e espalhar o medo é bom. Contanto que se ganhe dinheiro ...
Nós perdemos a nossa bondade.
Nós perdemos a nossa alma.
Esse período de 18 meses, com raras exceções, não me serviu para nada a não ser para me levar a perder o restante de  fé no ser humano, que eu ainda carregava, e em 34 anos pela primeira vez na vida me arrependo de decisões que tomei e de escolhas que fiz.
Hoje se eu tivesse uma máquina (como a dos observadores) capaz de apagar esses 18 meses da linha do tempo, essa seria uma boa oportunidade para utilizá-la.


Tocando no Walkman:
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