sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Se a escola é chata, o professor também é chato.


Parece óbvio o título do artigo, mas em meus longos anos como Professor, percebi que muitos discentes foram compelidos a abraçar a profissão de mestre, não por vocação, mas por falta de acesso a outras profissões de maior prestígio, com maior visibilidade social. Esta falta de vocação leva a atividade pedagógica a se tornar chata. Vejam bem, estou falando de se tornar chata a aula, a escola. Prova desta assertiva é a pesquisa divulgada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), vinculado ao Ministério da Educação, trazendo um dado que, se não impressiona pelo caráter inesperado da informação (muitos de nós já sabíamos disso a partir de nossas próprias experiências), chama a atenção pela extensão do problema: 40% dos jovens entre 15 e 17 anos que estão fora da escola a deixaram por desinteresse, devido à “chatice” da escola, vindo a necessidade pragmática de buscar emprego num distante 2º lugar (17%). O que é chato no dia-a-dia das salas de aula? Uma perspectiva de resposta estabelece que a escola seria chata sempre que se desconectasse da vida real, e seria interessante sempre que se mostrasse relevante, contextualizada, instrumental. Por essa perspectiva, largas parcelas da matemática, da filosofia e mesmo da chamada ciência pura estariam irremediavelmente condenadas à chatice, algo de interesse para uns poucos nerds. A chatice da escola não tem conexão necessária com o caráter abstrato e/ou formal dos conteúdos, e sim com a incompetência didático-pedagógica que apresenta tais conteúdos de forma desrespeitosa às regras da racionalidade. Tal incompetência se apoia fundamentalmente em duas perversões pedagógicas: primeiro, o autoritarismo de alguns professores, que além de não ter a vocação, vomitam princípios cuja explicação eles próprios desconhecem, e que devem na sequência ser aceitos e repetidos pelos estudantes, muitas vezes à custa de macetes mnemônicos, segundo, o menosprezo pelo questionamento dos estudantes. Tais perversões, conjugadas, fazem da sala de aula um contexto em que os estudantes primordialmente ouvem, e apenas esporadicamente falam (no sentido questionador do termo). Para que a sala de aula seja atraente é necessário, em primeiríssimo lugar, um professor que assuma com seriedade e competência seu papel de mediador, daquele que não apenas detém informação, mas franqueia discussão e oferece a necessária educação para a atividade intelectual de construção do saber. Que cada professor assuma, portanto, suas responsabilidades na desconstrução da alegada chatice da escola brasileira, e que o Estado promova e valorize neste professor esta competência que em muito transcende a prática chatíssima do amestrador. 

Tocando no Walkman:

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